domingo, 8 de novembro de 2015

Radfem - quando me tornei feminista radical e outras questões

Sou feminista há alguns anos. Poucos. Desde 2012, mais ou menos, quando comecei a ler textos sobre o assunto. Fui lendo mais e mais e me identificando. Vi que não há nada de errado comigo, conosco, que o assédio não é causado por mim, por nenhuma mulher, mas sim por homens que acreditam que nossos corpos são públicos. Vi que somos criadas pela família, ensinadas na escola que temos que nos conter, nos proteger, mas os meninos nunca precisam mudar porque "eles são assim mesmo". Quando nos tornamos "mocinhas", piora, porque não podemos nem andar na rua. Na rua que é pública não conseguimos caminhar em paz. Adultas, no mercado de trabalho, somos desvalorizadas. Ganhamos menos pelo mesmo serviço e com mesmo grau de capacitação - de repente, até mais. Somos julgadas se casamos muito jovens ou muito velhas e até se não casamos. tem idade certa pra isso; se temos filhos ou se não temos; pelo excesso de roupa ou pela falta; se somos magras demais também não pode; gordas idem. O certo é ser gostosa, se preocupar com a saúde e com o corpo, sem ficarmos fúteis.

É coisa demais pra se preocupar e ainda assim sermos julgadas. Nem aquelas que se adequam ao modelo imposto estão livres de julgamento, afinal, consideram nossos corpos como públicos. Foi lendo sobre feminismo que percebi que a culpa não é nossa, mas do sistema no qual estamos inseridas. O sistema machista e patriarcal .

Aí conheci o que chamam de LibFem, o feminismo liberal; as interseccionalistas - que lutam por tudo - e achei tudo lindo e maravilhoso. Marcha das vadias? Nossa, que legal, vamos ~ressignificar~ o termo. Mulheres trans no feminismo? Maravilha, elas se sentem mulheres, merecem participar também. E o "Meu corpo, minhas regras"?? E a liberação sexual??? Tudo isso meio que me fascinava, mas um dia, lendo sobre uma trans americana, Laverne Cox, que posou nua, vi muita gente aplaudindo pelo empoderamento, mas fiquei pensando: "sério que posar nua é empoderamento? Por que diabos homens poderosos não precisam posar nus pra serem empoderados?". Logo quis me corrigir, já que pensar assim seria transfóbico. Poxa, ela se sente mulher, e como se sente assim, dona do corpo, tem o direito de fazer o que quiser. 

Um belo dia cheguei no texto de um HOMEM falando do quanto o feminismo radical é excludente, já que uma feminista radical americana supostamente teria escrito que Laverne é uma caricatura. Homem falando mal de feminismo...que novidade, né. Aí fui atrás de ler o que Megan Murphy havia escrito. Minha interpretação do que Megan falou sobre fazer o que Laverne fez - posar nua, no caso - foi que isso atende aos interesses do patriarcado. Ela mostrou um corpo feminino tido, pelos padrões atuais, como perfeito, que quase nenhuma mulher consegue alcançar e, quando consegue, é mediante dietas malucas, cirurgias plásticas desnecessárias tudo porque o machismo nos faz acreditar que somos horríveis, feias, sujas, que tudo em nós precisa melhorar, aí chega o capitalismo e inventa mil produtos que tem a finalidade de "nos deixar bonitas" e nos tornamos escravas de tudo, sempre na ansia de alcançar um padrão inalcançável.

Qual o problema com a atriz? Nenhum, pessoalmente, mas pensei sobre tudo que Megan escreveu e fiquei com aquilo martelando na cabeça, sabe, que ser mulher não é usar vestido, maquiagem, ter um corpo escultural e comecei a pesquisar sobre o feminismo radical. Inicialmente vi mais a galera chamando as radfem de TERF, sigla em inglês para Trans Exclusionary Radical Feminists  (Feministas Radicais Trans-Excludentes). Muito blog que eu gostava de acompanhar se posicionou a favor do macho da playboy que atacou Megan, corroborando com a opinião dele de que o feminismo radical é super transfóbico e exclui as mulheres trans e blablabla, mas como boa sagitariana, continuei pesquisando (nem sei se tem a ver, mas queria enfiar signos aqui no meio. Foi mal).

O feminismo radical - radical de RAIZ e nao de extremismo - tem como objetivo acabar com gênero, por que o gênero é a raiz da opressão sofrida por nós, mulheres. Logo, isso de "se sentir mulher" não existe pra nós. "Ah mas isso é transfobia", não, não é transfobia, pq nao negamos os direitos das pessoas trans, pelo contrário, acolhemos os homens trans - sempre ignorados pelo transativismo. Feministas radicais são chamadas de transfóbicas pq negam a identidade de gênero, ou seja, nao aceitamos isso de "se sentir mulher". Não é porque você gosta de maquiagem que você é mulher. Não é porque você gosta de saia que você é mulher. Não é porque você gosta de salto alto que você é mulher. Afirmar isso é nos diminuir como classe e afirmar que somos apenas aquilo que o patriarcado quer que sejamos: objetos de decoração. Dizem as transativistas que ser mulher não é ter buceta. Ser mulher  é o que então? Se sentir mulher? Nós, feministas radicais, dizemos que ser mulher é ser socializada como mulher.

Simone de Beauvoir afirmou na sua obra O Segundo Sexo:  


 ninguém nasce mulher: torna-se mulher. nenhum destino biológico, psíquico, econômico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como o Outro.

Então ela não quis dizer que você nasce macho da espécie humana e se um dia aprender a gostar de maquiagem vai se tornar mulher, ela disse que fêmeas da espécie humana - nós que nascemos com buceta - fomos socializadas para sermos o Outro. Fomos criadas para sermos submissas, calmas, dóceis. O nosso papel social nos é IMPOSTO desde o momento do nascimento - ou de que é descoberto que nasceremos fêmeas. No fim das contas, não podemos separar macho de homem e fêmea de mulher, apesar de sexo e gênero serem coisas distintas. Isso  quer dizer que gênero é hierarquia que nos impõe como devemos nos portar, inclusive falando de coisas femininas ou não femininas.

Dizer que é possível se sentir mulher, aceitar que existe "alma feminina", "mente feminina" é aceitar que usar vestido, maquiagem e salto alto é da natureza da fêmea humana e não, não é. Não sei se alguém aí sabe mas os egípcios usavam maquiagem. Homens e mulheres. Todos. Salto alto também quando foi inventado era usado principalmente por homens. E aí, ainda é coisa da ~natureza feminina? Vou além: se uma pessoa branca não pode simplesmente sair por aí dizendo que é negra porque ama os negros e se identifica com eles, por que diabos alguém pode chegar e dizer que sente mulher só porque gosta de vestido? 

Aí quando falamos que a questão de ser mulher e ser homem é a socialização que homens e mulheres recebem - socializações diferentes -  e não gostar de X ou Y, somos taxadas de TERF. Nos excluem e nos chamam de perigosas. Somos silenciadas dentro de feminismo, um movimento que deveria ser de pessoas que foram socializadas como mulheres - isso inclui homens trans - pq nós sim sabemos o que é sofrer a opressão de gênero na pele. "Ah mas pessoas trans sao mortas". Realmente. E é horrível isso. Pessoas trans devem lutar pelos direitos, mas precisa ser dentro do nosso espaço? Não negamos a existência de transfobia, mas somos demonizadas dentro do movimento feminista. Mulheres nos excluem por que falar de aborto e menstruação é gatilho pq nem toda mulher tem útero??? Vamos ficar sem falar de mutilação genital de meninas porque tem gente que sente excluída pq não nasceu com clitoris, mas se sente mulher? Vamos ignorar o aborto seletivo na Índia e na China? IS THIS REAL LIFE??????

TERF é um termo misógino que homens que querem invadir nosso espaço inventaram pra jogar outras mulheres contra nós. Ponto. Feminismo é um lugar que pessoas socializadas como mulher devem se sentir acolhidas; feminismo é o lugar em que nós devemos poder falar sem medo de ser sermos silenciadas por gente que nasceu com pinto, logo, que foi socializado pra se fazer ouvir; feminismo é pra gente que cresceu com medo de andar na rua tarde da noite; pra gente que a todo momento corre perigo de ser estuprada; pra gente que morre dentro de casa, por causa de parceiros que acham que são nossos donos.


  
"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. - See more at: http://beauvoiriana.tumblr.com/post/99528808887/ningu%C3%A9m-nasce-mulher-torna-se-mulher-nenhum#sthash.vxfGkHhN.dpuf
"Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. - See more at: http://beauvoiriana.tumblr.com/post/99528808887/ningu%C3%A9m-nasce-mulher-torna-se-mulher-nenhum#sthash.vxfGkHhN.dpuf
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