quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Sobre ser feminista radical e heterossexual




Esse é um blog pessoal, logo, antes de tudo gostaria de deixar claro que aqui vou relatar uma experiência 100% pessoal. Não tem a ver com teorias, com estatísticas, autoras feministas. Nada disso. É a minha experiência. Também quero deixar claro que meu objetivo não é “tirar a imagem de que toda feminista é lésbica”, não quero tirar imagem nenhuma pq pra uma mulher se assumir como lésbica é mais que assumir uma orientação sexual, é um ato de resistência.

Dito isto, inicio meu relato. Decidi fazer esse texto por causa de algumas amigas, também do rad, que me perguntaram se eu não pirei quando conheci o rad, já que me relaciono com o opressor, e quando uma amiga que junto comigo e outras minas administram uma página sobre feminismo radical (RevoluRads) que criamos lá no feisse pediu para que eu escrevesse algo sobre. Então: eu sei que homens oprimem mulheres sistematicamente. Eu não sabia quando conheci meu namorado/noivo. Quando o conheci, eu era uma moça de 20 anos que estava conhecendo o feminismo. 

Sempre nos demos incrivelmente bem e conversamos sobre tudo. Quando eu lia sobre feminismo, mandava o link pra ele. Quando não era possível, eu comentava com ele e conversávamos sobre. Quando ele lia algo e não entendia, me perguntava. E assim foi. Os dois muito jovens – ele mais novo que eu – amadurecemos e crescemos juntos. E eu sempre fiz questão não só de mostrar o feminismo pra ele como de gostar que ele aplicasse nele mesmo, descontruindo (a palavra da moda) o que a socialização masculina tinha feito com o que ele acreditasse e pensasse. Mas tudo isso só foi possível pq ele estava aberto pra isso. Estava não, está, pq assim como eu estou em constante aprendizado sobre as temáticas feministas, ele também. E o que eu aprendo com minhas amigas rad – o que aprendemos lendo autoras, nos questionando, apresentando ideias – eu sempre exponho pra ele. 

Ano passado, quando conheci o feminismo radical, passei a cobrar dele (isso mesmo, COBRAR) atitudes quanto a isso que aprendemos. Não atitudes em relação a própria desconstrução dele ou em relação a mim – já que eu nunca permitiria qualquer atitude machista/abusiva dele comigo - , mas com os amigos dele:
- Ah fulano fez um comentário X.
Eu já digo:
- Opa e tu falou pra ele que foi escroto? Que foi desrespeitoso? Que foi misógino?

Não só com os amigos, mas também com a família dele. Nesse natal eu perguntei se ele havia ao menos entrado na cozinha pra ajudar a mãe com a ceia. A resposta não foge da obviedade: não. Segundo ele pq sua mãe odeia, mas perguntei quem a estava ajudando e não foi surpresa quando ele enumerou 5 ou 6 mulheres. “ah que bonito então tu vai encher o bucho enquanto tua mãe e outras mulheres ficaram o dia todo cozinhando????”. “Sim”, foi a resposta. Eu disse que esperava que isso não se repitisse e obtive como resposta um  “ah mas ela expulsou até meu pai da cozinha bla bla bla”. A socialização, amigas, ela não falha. É bem provável que a mãe dele – como outras mães – digam que não gostam de ajuda na cozinha quando tal ajuda vem de homens, já que eles não sabem fazer nada. Mas importantíssimo ressaltar que esses homens que não sabem fazer nada na cozinha a não ser atrapalhar são assim muito provavelmente pq nunca foram ensinados a fazer nada na cozinha. Mas existem outras tarefas que não necessariamente cozinhar, não é? Eu não sei cozinhar e nem pretendo aprender, confesso, mas passei o dia 24 todo na cozinha com a minha mãe: eu cortava tempero, lavava louça, pegava ingredientes, mexia panela etc. Voltando ao assunto, eu disse que já que ele ia comer sem ter feito porra nenhuma, que pelo menos arrumasse no final da festa.

Amigas, a questão aqui é que apesar de homens, estruturalmente, oprimirem mulheres, não quer dizer que todos o façam de maneira individual - o que não faz com que ele perca seus privilégios de homem. Meu namorado/noivo tem consciência dos privilégios de homem branco classe média que ele possui, nem sempre dá pra abrir mão de todos já que a maioria é intrínseco: só de ter nascido branco e homem ele já tem privilégios que metade do mundo não tem, ele nasceu assim, não tem como mudar isso, mas ele pode mudar a si mesmo, entender o contexto em que as coisas acontecem, não silenciar ninguém, conscientizar os seus iguais e é isso que ele faz ou pelo menos – com o meu empurrão – está sempre aberto a fazer. Hoje eu com o conhecimento que tenho provavelmente não ficaria com um cara que não fosse assim. Eu não teria psicológico pra aturar um homem que ficasse constantemente reafirmando seu machismo.

Mas, meninas, o mais importante de tudo especialmente quando se tratar de relacionamento hetero, é: seja mais você! SEMPRE SE PONHA EM PRIMEIRO LUGAR. Como eu disse, a socialização não falha e se você não se impuser em nenhum momento – de preferência no início do relacionamento – eles vão montar. Eles vão querer mandar, vão querem apontar dedo, mas nunca permita isso. Se você mostrar como são as coisas e ainda assim o cara fizer qualquer tipo de pressão psicológica, chantagem emocional, manas: FUJAM. Pra minar nossa autoestima já basta a mídia que joga na nossa cara todo dia que nunca seremos belas o suficiente e nos enfia produtos de beleza goela abaixo. Não aceitem migalhas emocionais e nunca pensem, por melhor que o cara seja, que você tem sorte por tê-lo encontrado. Eu tenho um namorado-quase-noivo que eu amo e que me ama, me valoriza e me respeita, que está aprendendo e sempre aberto não só a mudar a si mesmo como cutucar seus amigos, conhecidos etc quando estiverem sendo machistas/misóginos, mas por isso eu penso que tenho sorte? Jamais, manas, quem tem sorte é ele de ter encontrado alguém que o ajudou a se tornar uma pessoa melhor.